Febre, vômito,
dor de cabeça e no corpo. Sintomas comuns a muitas doenças. No Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel
García Márquez, é sinal de amor,de uma paixão não correspondida!
É o mal que sofre Florentino Ariza por amar Fermina Daza.
Amores
doentios, incondicionais, descabidos, cegos, efêmeros, altruístas, jovens,
velhos, infinitos e até os sem-definição. Todos têm espaço na narrativa. E é sob o pano de fundo do amor que está o
resto das coisas para Florentino. Ele – confessadamente – nasceu para amar,
o que, no livro, não soa piegas. Ao contrário. A obstinação do personagem na
busca irracional pelo amor de Fermina é doentia, mas na narrativa tem um tom lírico.
Florentino deseja-a
a qualquer custo. A moça chega a corresponder seus sentimentos, mas desiste quando
percebe o quão banal ele é. O amor de Florentino não tem medida e, sem referências
reais, ele continua idealizando um amor com Fermiza. Sofre de amor e sente os
sintomas do cólera. A mãe acredita piamente que o filho fosse morrer vítima da
doença. Mas, na verdade, ele quase morre de amor!
Esse talvez
seja um dos principais motivos pra eu achar o livro interessante. O realismo
atribuído ao sentimento de Florentino é tamanho que se passa a levar quase tudo
ao pé da letra. No livro, quase se morre por amor! (Se a moda pega...)
Nesse ir – e –
vir de ruindades, o personagem só se livra dos sintomas da “doença” (e não do
amor) quando, para passar o tempo enquanto espera pelo fim do casamento de
Fermina com o médico Juvenal Urbino, “ama” centenas de mulheres. Por cada uma,
uma entrega diferente, mas não definitiva.
Parece claro
que Florentino é sujeito tomado pelo amor. Mas, no meio das paixões, há sempre
o fantasma de Fermina, que, por sua vez, passa praticamente todo o romance
casada, sem saber ao certo se vivera um amor de verdade.
O Amor nos Tempos do Cólera, sem sombra
de dúvidas, é um rico apanhado sobre as relações humanas e o enigma que move as
pessoas, porque - a rigor da maioria dos personagens -, no fundo, temos mesmo o
desejo de amar e sermos amados nesta vida.
Se há algum
aspecto que torna a leitura cansativa, é
o fato de que, na ânsia de criar cenários palpáveis ao leitor, Gabriel García é
extremamente detalhista nas descrições. A decoração da casa, o cenário de uma
conversa banal, ou situações que se arrastam por páginas e páginas, etc.
Entretanto, esta não é nem de longe a impressão geral que tive do livro. E sei
que ainda há muito que se discutir. Nesse caso, só lendo pra saber!
Maraísa Lima é jornalista, editora da TV Record